
Levantou-se cedo...Era uma manhã fria, do inverno de 1994, os pássaros não cantavam como antes, talvez o frio os incomodassem, ou estavam com a mesma dor de garganta que ele estava...Sua esposa ainda estava dormindo, dormia feito pedra, talvez pela noite que tinham tido, uma noite inigualável, e que ele não iria esquecer pelo resto de sua vida...Pareciam esta comemorando algo, e talvez estivessem, a alegria, felicidade e amor constante que viviam...
Desceu, ainda de pijama, foi até a cozinha e preparou uma xícara de chocolate quente...Pôs na sua xícara predilecta, ligou o som, havia um CD do Deep Purple, ouviu duas, ou três canções, resolveu ouvir um de seus LPs, pesquisou em sua discoteca...achou um de Maria Bethania, pôs na vitrola, saltou pra musica Explode Coração, uma bela musica de Gonzaguinha...Pensou em toda sua vida, e a noite que havia passado com a mulher que tinha prometido sua vida, feito juras de amor, e lembrou-se que ainda continuava a fazer juras, talvez por instinto, ou quem sabe necessidade...
Lembrou-se do seu casamento, tão fora do comum, os dois vestidos com o mínimo de roupa, descalços, na praia, com vários amigos presentes...Poucos familiares, mas um casamento divertido, ao ar livre...Bem a cara dos dois...
Depois de dois anos juntos, sempre juntos, em brigas, em alegrias e em conquistas, inseparáveis, inconfundíveis...Podia-se dizer almas gêmeas...
Dez minutos depois, mais ou menos, de ele ter lembrado tanta coisa, ela desceu, cabelos desgrenhados, pijama amarrotado, e aqueles olhos, ah...Aqueles olhos inconfundíveis, verdes claros, tão duros, tão austeros, e tão simples ao mesmo tempo...Ela tão linda, quanto a primeira vez em que se viram, um cabelo de tom ruivo, olhos belos, e umas poucas sardas no rosto, branca como neve...A mulher de sua vida...Além de preparar o melhor café que ele já provara...
De repente os dois se olharam, ele sentiu uma forte dor no peito, caiu desfalecido...Ela imediatamente correu até ele para socorre-lo, cinco minutos depois, ele levanta-se, se recompõe...Ela mostra-se preocupada pela saúde do amado...conversam a respeito do que estava lhe acontecendo, há algum tempo ele tinha observado um caroço, como se fosse um gânglio, no seu peito direito...E sempre doía, e ele sentia-se fraco...Eles lembram que aquele pitoresco caroço já tinha uns três a quatro anos...Ela resolve leva-lo, nesse instante ao medico, aquilo não podia continuar daquela forma, os dois ignorando e até brincando com a saúde dele...
Nove horas da manha, tomaram banho, se trocaram e foram ver o medico, ela havia marcado a consulta por telefone...Chegaram ao hospital e aguardaram na sala de espera...A enfermeira os chamou, foram os dois de mãos dadas em direção a sala do doutor, foram bem recepcionados, o medico cordialmente apertou as mãos do dois, puxou a cadeira para ela e passou a conversar com eles, perguntou qual o problema, e como ele vinha se sentindo nos últimos dias...depois de uns dez minutos de conversa e o medico pediu para que se deitasse na maca, para que o medico pudesse fazer seu prognostico...
De repente o medico pergunta se ele já tinha feito o auto-exame da mama...Ele respondeu que já tinha sentido algo, mas nunca tinha passado por sua cabeça que fosse algo serio....
O medico logo fez uma cara(aquela cara de que algo ruim tinha acontecido), ela percebeu de imediato, e obviamente preocupou-se, ele pediu para que o doutor fosse-lhes franco, e não escondesse nada...
o medico pacientemente, pediu para que ele levantasse e vestisse a camisa que havia tirado, pediu para se sentarem, e explicou...
Câncer de mama...Câncer já é uma palavra assustadora, e alvo de muito preconceito, eles , como a maioria das pessoas, odiavam pronunciar essa palavra sempre diziam as letras ou mudava o nome, e consequentemente não sabiam o bastante, eram leigos no assunto, tudo por uma besteira, que era o medo, preconceito contra a doença...O medico foi directo, disse que provavelmente ele estivesse com câncer...
Fizeram a mamografia, e infelizmente...
Ele tinha sido vitima do seu próprio preconceito...O câncer já havia tomado todo seu peito, estava destruído por dentro, e o medico deu sua sentença...
O inverno passou e com ele todo aquele amor desmedido...Ele se foi tristemente, deixou apenas a lembrança de dias felizes, das muitas horas de brincadeiras e brigas por coisas simples, supérfluas, o dia que fingiu estar bêbado, a discussão pra decidir qual seria a cor da parede da janela, onde iriam por o abajur que haviam comprado em um antiquário que acharam na viagem a Portugal que fizeram em 92...
Ela agora era só lembranças, como pode alguém ir assim tão de repente, mas ela lembra-se da despedida, dos muitos momentos em que foram felizes, do dia em que viveram como se nunca mais fossem se ver, o que realmente aconteceu, talvez destino...Puderam se tocar, se amar, ser feliz ao menos por uma ultima noite...
E ela só, triste, inconformada com tamanha falta de bom senso, chorou noites seguidas em busca de seu grande amor...De seu eterno amor...
Eu fiz esse texto lembrando de um blog que eu visitei tem algum tempo....e
como muitos, eu não sabia que homens podiam ter câncer de mama, fiquei triste,
comovido com a historia dela, talvez o cara não fosse namorado, ou marido dela,
era uma pessoa próxima e que ela gostava muito, resolvi escrever isso...confesso
que pensei num final feliz....mas não consegui...